Publicada em 29/06/2007


APÓS A CONQUISTA DAS COTAS,
SEGUE O DEBATE SOBRE O RACISMO E A LUTA DE CLASSES.

Cotas étnico-raciais e sociais são aprovadas pelo conselho universitário da UFRGS após muita pressão e mobilização dos movimentos sociais.


             Na sexta-feira, 29 de junho, foram aprovadas na UFRGS as cotas para estudantes egressos de escolas públicas e para negros, também egressos do ensino público. Essa vitória, que é histórica, só foi possível em função de uma mobilização que já vem de anos do movimento negro, dos estudantes e outros setores do movimento social que se solidarizam com essa luta. Agora 30% das vagas do Vestibular serão destinados aos cotistas, 15% para as étnico-raciais e 15% para as sociais. A medida terá validade já no próximo concurso, em 2008.

             Essa luta vem alimentando diversas discussões entre todos aqueles que lutam contra o racismo, por uma sociedade socialista, sem exploração e opressão. Alguns ativistas, ligados ao PT e a Lula, dizem que agora os negros estão incluídos na universidade, como se as cotas fossem o final de uma luta histórica; quando, na verdade, são apenas o primeiro passo. Diferente destes, que se apropriam de uma bandeira tão importante, da luta contra o racismo, para usá-la como palanque nas próximas eleições, nós da Construção do Movimento Revolucionário queremos continuar o debate sobre o significado das cotas e seus limites, sobre o racismo enquanto uma questão de classe e sobre a luta por uma universidade realmente pública, universal e de qualidade.

POR QUE DEFENDEMOS AS COTAS?

             Os trabalhadores negros, que carregam no sangue mais de três séculos de escravidão, ainda continuam sendo mais explorados do que os outros, em função da opressão racial que sofrem. A escravidão acabou, e os negros já foram inseridos na “cidadania”. Contudo, o papel reservado a eles, como cidadãos, é o de ganhar menos para trabalhar mais, além de serem vítimas da violência racial. Essa é a inserção que garante o capitalismo.

             Na vida prática, cotidiana, vemos as provas de que a democracia racial não existe: a maioria esmagadora dos negros está concentrada nas grandes periferias; os trabalhadores negros possuem os menores índices salariais; os jovens negros são alvo da violência policial que toma conta das favelas do país; na UFRGS, por exemplo, apenas 2% dos estudantes são negros. As favelas têm uma cor, as escolas particulares outra. Essa é a regra no Brasil. O racismo, portanto, é um problema social, de classe, acima de tudo. Também á assim com os povos inígenas, que foram dizimados pelos europeus quando estes iniciaram o processo de colonização do Brasil. Esse é mais um motivo para apoiar as cotas raciais, pois também em relação a esses povos oprimidos se trata de uma reparação histórica.

             O discurso da “meritocracia”, que diz que passam no vestibular aqueles que se esforçam, estudam, e que merecem entrar na universidade pública, é desmascarado pela realidade. A comparação do desempenho dos cotistas, já dentro da universidade, é igual ou superior a dos não cotistas. Quer dizer, o que separa um universo do outro é a barreira social do vestibular. Não há como um negro ou um estudante de escola pública competir em mesmas condições com um jovem que estudou a vida inteira em escola particular, que fez cursinho pré-vestibular e que não precisa trabalhar para ajudar em casa.

             Defendemos as cotas porque se tratam de uma reparação histórica, de uma dívida que o Estado brasileiro tem com o povo negro. Além disso, essa é uma luta que, levada a suas últimas conseqüências, é anticapitalista, na medida em que o Estado burguês não tem mais condições de garantir a entrada dos setores oprimidos da sociedade na universidade, sem se chocar com seus próprios interesses.

             O compromisso da burguesia nacional é mandar dinheiro para os grandes banqueiros, através da dívida interna e externa. Para isso precisa cortar os gastos com a educação e atacar outros direitos da população. Nesse sentido, as cotas são um duro golpe nessa lógica de desmontar e privatizar a educação pública, e são, portanto, uma derrota do governo Lula, ainda que limitada.

A LUTA NÃO PÁRA!
DEFENDER UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA É LUTAR PARA DERROTAR LULA

             A luta, agora mais do que nunca, tanto do movimento negro, como de todos os estudantes e trabalhadores, deve ser para exigir a abertura de cursos noturnos, da estatização do ensino particular e da universalização do ensino superior gratuito, público e de qualidade, com a extinção do vestibular. Para este propósito, a aprovação das cotas é um passo importante, mas de caráter imediato e paliativo. Esse é o desafio: aproveitar nossas vitórias específicas para alcançar nossas bandeiras gerais.

             É preciso barrar a Reforma Universitária do Lula e da UNE (União Nacional dos Estudantes), que privatiza a educação e a torna ainda mais elitista. É preciso derrotar Lula e pôr abaixo o congresso corrupto, para construir uma verdadeira universidade para os trabalhadores.

Não existe capitalismo sem racismo

     A opressão de raça, assim como a de sexo e gênero, serve para que a burguesia explore um setor da sociedade mais do que o outro. Os negros ganham menos e estão localizados nos piores postos de trabalho e com as piores condições. Além de servir para o patrão explorar mais a mão de obra, o racismo divide a própria classe trabalhadora. Tudo que a burguesia precisa é que os explorados não se unifiquem para, assim, poder derrotá-los, pois estarão divididos e fracos.

     Por isso, como disse Malcon X, “não existe capitalismo sem racismo”. Apenas com uma revolução dos trabalhadores, brancos e negros, junto com a juventude, os desempregados e os movimentos populares, é que podemos acabar com o racismo. Morte ao capitalismo e ao racismo. Viva o socialismo!

-   Mais verbas para a educação pública. Cursos noturnos já e concurso para professores.
- Derrotar Lula e a UNE. Não à Reforma Universitária.       
- Estatização do ensino privado. Que todas as vagas sejam públicas.
- Pelo fim do Vestibular. Educação é direito, e não mercadoria.

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